

Thursday, 20 August 2026
A Seleção Nacional de Boccia partiu de Portugal na manhã de 17 de agosto com destino a Seul, na Coreia do Sul, para um estágio de preparação e para disputar o Campeonato do Mundo da modalidade (prova mais importante do quadriénio, antes dos Jogos Paralímpicos), que decorre entre 24 de agosto e 4 de setembro. Uma delegação de 9 atletas e 15 técnicos, dividida em três grupos: dois com partida do Porto e um de Lisboa. A chegada estava prevista para as 09h30 do dia 18 de agosto (hora de Seul, cerca de 01h30 em Portugal).
Só um dos grupos cumpriu o plano. Os atletas Ana Correia e Diogo Castro, acompanhados pelos técnicos Raquel Costa, Rui Castro e Mariana Simões, entraram no Centro de Treinos Paralímpico de Incheon no dia 18, como estava previsto. Para os restantes, a viagem transformou-se numa sucessão de atrasos, esperas e improvisos que expõe a falta de preparação das companhias aéreas para transportar pessoas com deficiência em condições seguras e dignas.
Episódio 1: a saga da partida de Lisboa
Um problema anunciado
O grupo formado pelos atletas André Ramos, Cristina Gonçalves e Paulo Cardoso e pelos técnicos Rogério Soares, Mariana Nunes, Joaquim Saraiva e Marta Mascarenhas tinha voo marcado para Paris às 05h35 de 17 de agosto. Na semana anterior, a Air France alterou a partida para as 09h50, reduzindo o tempo de escala para a ligação a Seul a pouco mais de uma hora, manifestamente insuficiente para um grupo com três atletas em cadeiras de rodas. A companhia aérea, contudo, garantiu que não haveria risco de perder a ligação, por ser um voo operado por si.
O grupo chegou ao Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, no dia 17 às 06h45. O check-in, embora feito com atenção, foi excessivamente demorado: foi pedida a confirmação repetida de informação sobre as cadeiras de rodas já enviada com antecedência, o que levou ao atraso da partida e ao encurtamento de um tempo de escala já por si insuficiente. Em paralelo, o pessoal de assistência do aeroporto (MyWay) pressionou o grupo para se separar, de forma a acelerar o processo, sem respeitar as necessidades dos atletas.
O voo perdido em Paris
O avião partiu com quase uma hora de atraso e aterrou em Paris precisamente à hora de abertura do check-in do voo para Seul. Poderia parecer tempo suficiente, mas quem viaja com grupos em cadeira de rodas sabe que o procedimento habitual é serem os primeiros a embarcar e os últimos a sair, com o desembarque a ser feito um a um, numa cadeira específica que caiba no corredor da aeronave.
Tratando-se de um grupo pequeno, com um voo seguinte para apanhar que era longo (quase 12 horas) e difícil de substituir, e estando o embarque a decorrer, seria razoável esperar uma exceção. Não houve. Depois de aguardar pela assistência, e apesar da hora, foram os os últimos a desembarcar e o grupo foi conduzido pelo aeroporto sem qualquer sentido de urgência e sem alternativa. Resultado: o voo partiu sem os atletas e técnicos.
Seguiram-se mais de quatro horas ao balcão da Air France em busca de alternativa. Às 15h35, ainda sem terem almoçado, foi encontrado um voo da Korean Air às 20h35. Quando tudo parecia confirmado, o grupo foi informado de que não podia embarcar: os procedimentos daquela companhia exigiam mais tempo de antecedência para transportar duas cadeiras de rodas elétricas.
Sem refeições, sem cadeiras, sem respostas
Às 17h35, o grupo comprou por meios próprios uma refeição ligeira. Os vouchers de alimentação foram recusados com o argumento de que só podiam ser emitidos após a emissão dos novos bilhetes de avião. Em termos práticos: um grupo no aeroporto desde as 06h45, sem qualquer refeição, teria ficado sem comer até à saída para o hotel, às 19h00, caso não tivesse dinheiro próprio.
Da bagagem despachada, foram recuperadas apenas duas malas e as três cadeiras de rodas dos atletas, indispensáveis para qualquer deslocação e sem as quais não podiam sequer ir ao hotel. Durante toda a espera, o pessoal de assistência insistiu várias vezes em retirar-se e levar as cadeiras do aeroporto que os atletas estavam a utilizar, sem as quais não conseguiriam ter o mínimo de mobilidade para as necessidades mais básicas, como, por exemplo, ir à casa de banho.
Só depois foram assegurados hotel, jantar, kit de higiene e transporte, com nova partida marcada para as 14h40 do dia seguinte. O levantamento das malas e das cadeiras necessárias para essa noite levou quase duas horas, com a justificação de que "as cadeiras eram muito pesadas".
O stress acumulado, o cansaço e a perda de pelo menos um dia e meio de treino na preparação da competição mais importante do ciclo paralímpico tiveram um impacto significativo em atletas e técnicos, que, ainda assim, enfrentaram tudo com uma disposição e resiliência admiráveis.
A saga continua no dia seguinte
Seria de esperar que, no dia 18, a Air France assegurasse um embarque sem falhas. Não aconteceu. O novo check-in da bagagem e das cadeiras foi outra vez moroso e incompreensivelmente complexo, com evidente falta de articulação entre a assistência do aeroporto e a companhia. Resultado: apesar de estar no aeroporto 3h40 antes da partida e de terem, em teoria, prioridade no check-in, o grupo teve de correr de novo para a porta de embarque, com os atletas a mal poderem ir à casa de banho antes de embarem num voo de 12 horas.
Justiça seja feita: o voo decorreu sem incidentes e a tripulação teve um cuidado especial com o grupo. E, à chegada à Coreia do Sul, o contraste foi notório: a assistência chegou de imediato, o desembarque foi assegurado com rapidez e os atletas encontraram as suas próprias cadeiras à espera mal desembarcaram.
A surpresa final
A Air France guardou, porém, um último desfecho: as malas de André Ramos e Paulo Cardoso não chegaram a embarcar. Mais de 24 horas depois, continuavam por entregar, com prejuízo evidente para o bem-estar e a preparação dos atletas. A resposta da companhia limitou-se a indicar que fosse apresentada reclamação, sem qualquer verba para aquisição de bens essenciais de higiene, vestuário e medicação.
Às 20h00 em Seul, e apesar de um e-mail da companhia aérea a informar que as malas foram localizadas, elas ainda não tinham chegado. Os atletas mantiveram-se sem os seus bens pessoais até às 23 horas desse dia, felizmente apoiados por um grupo que nunca os deixa desamparados e que prontamente se disponibilizou a ajudar.
O que exigimos
Sete pessoas ficaram mais de doze horas num aeroporto sem uma refeição garantida, com as suas cadeiras de rodas retidas e sem saber se chegariam ao Mundial a tempo de treinar. Não por acaso, mas por uma cadeia de decisões em que ninguém assumiu responsabilidade: uma alteração de horário feita pela companhia, uma assistência sem sentido de urgência, procedimentos que se sobrepõem às pessoas e uma resposta final que se resumiu a "faça reclamação".
Prioridade no embarque não pode ser uma frase impressa num bilhete. Tem de significar tempo, cuidado e articulação real entre companhias aéreas e serviços de assistência. Enquanto isso não acontecer, viajar com deficiência continuará a ser um exercício de resistência.
A PCAND vai apresentar reclamação formal, exigir a reparação dos danos causados aos atletas e insistir junto das entidades competentes para que estas falhas deixem de ser aceites como normais. Os nossos atletas conquistaram com mérito e sacrifício a oportunidade de competir ao mais alto nível e veem a sua preparação e participação postas em causa. Merecem chegar às competições em condições de competir.
Fica a pergunta: é este o serviço que se considera aceitável para pessoas com mobilidade reduzida?
Na prática, o "tratamento prioritário" traduziu-se em horas de espera, refeições negadas por questões burocráticas, cadeiras de rodas retidas e treinos perdidos. Os direitos dos passageiros com deficiência estão claramente definidos na legislação europeia. O que este episódio mostra é a distância entre o que está escrito no regulamento e o que acontece no balcão de check-in e na porta de embarque.